Em discurso contundente no plenário, representante de comunidades de matriz africana criticou vereadores e afirmou que não aceitará que preconceito seja apresentado como preocupação com a educação
O clima voltou a ficar tenso no plenário da Câmara Municipal de João Monlevade durante um pronunciamento de Alexandra Mara Felipe, que cobrou dos vereadores uma posição diante de manifestações que, segundo ela, configuram intolerância religiosa e racismo religioso contra as tradições de matriz africana.
Em uma fala marcada por críticas e cobranças, Alexandra afirmou que está cansada de precisar retornar ao Legislativo para defender direitos que, em sua avaliação, deveriam ser protegidos pelos próprios representantes públicos.
“É muito cansativo estar aqui mais uma vez, porque infelizmente nós estamos vindo aqui só para nos defender”, afirmou.
Segundo Alexandra, vereadores têm o dever de conhecer e respeitar a Constituição Federal, as leis e os direitos fundamentais, independentemente de suas convicções pessoais ou religiosas.
Ela também criticou o silêncio de parte dos parlamentares diante do episódio que motivou a discussão e afirmou que a comunidade de matriz africana esperava uma manifestação mais firme da Câmara.
“Não existe educação quando se ensina uma criança a ter medo da religião do outro”
Um dos pontos centrais do discurso foi a discussão sobre atividades relacionadas à cultura afro-brasileira no ambiente escolar.
Alexandra afirmou que questionamentos sobre manifestações de matriz africana não podem ser apresentados apenas como preocupação com a educação quando, na avaliação dela, acabam reproduzindo preconceitos.
“Não existe educação quando se ensina uma criança a ter medo da religião do outro. Não existe educação quando uma tradição religiosa é tratada como ameaça”, declarou.
Para ela, a escola deve ser espaço de conhecimento, respeito e convivência com a diversidade, incluindo a história e a cultura afro-brasileira e africana.
Alexandra classificou como intolerância religiosa qualquer tentativa de apresentar uma tradição religiosa como ameaça e afirmou que, quando o alvo são religiões de matriz africana, também é necessário discutir o chamado racismo religioso.
Críticas diretas a vereador que é pastor
Durante o pronunciamento, Alexandra dirigiu críticas diretamente a um vereador que exerce também a função de pastor.
Ela afirmou que, dentro da Câmara, o parlamentar deve exercer o mandato como representante da população e não utilizar sua posição política para defender uma determinada crença religiosa.
“Você é pastor. Aqui, o senhor é vereador. Você veio aqui para verear, para defender a lei, independente de você concordar ou não”, afirmou.
Na avaliação de Alexandra, caso um parlamentar discorde de determinada legislação, existem mecanismos legais para questioná-la, mas a tribuna não deveria ser utilizada para manifestações que possam alimentar intolerância religiosa.
“O seu mandato não pertence à sua religião, o seu mandato pertence ao povo”, disse.
A representante ainda afirmou que não se trata de exigir que outras pessoas adotem ou concordem com as religiões de matriz africana.
“Nós não queremos que ninguém ame a nossa religião. Queremos apenas que se respeite”, declarou.
“De que lado a Câmara vai ficar?”
Em um dos momentos mais fortes do pronunciamento, Alexandra colocou os vereadores diante de uma escolha que, segundo ela, precisa ser feita pelo Legislativo municipal.
“Vocês vão ficar do lado da Constituição ou do lado do preconceito? Vocês vão ficar do lado da educação ou do lado da intolerância? Do lado da democracia ou do lado da perseguição religiosa?”, questionou.
Ela afirmou que as comunidades de matriz africana estão organizadas e que não aceitarão que manifestações que consideram preconceituosas sejam apresentadas com uma linguagem que, segundo ela, tente suavizar o conteúdo.
“Não adianta colocar uma palavra bonita em cima do preconceito para escondê-lo. Veneno continua sendo veneno mesmo quando colocado numa embalagem bonita”, afirmou.
Alexandra também citou Exu, Zé Pilintra e os orixás ao defender o direito de representação e respeito às tradições de matriz africana.
Crucifixo na Câmara também foi citado
Outro ponto levantado durante o discurso foi a presença de um crucifixo no plenário da Câmara.
Alexandra questionou por que símbolos cristãos podem estar presentes em um espaço público enquanto, segundo ela, não haveria representação equivalente das tradições religiosas de matriz africana.
A declaração foi utilizada para reforçar sua defesa de uma atuação pública pautada pela liberdade religiosa e pelo respeito à diversidade.
Alexandra cita AMAD, CONFIR e processo contra vereador
Durante a manifestação, Alexandra afirmou falar em nome da AMAD e do CONFIR e destacou que, segundo ela, a mobilização não se trata apenas de uma indignação individual, mas de uma defesa de direitos.
Ela também fez referência ao vereador Sinval Dias, afirmando que o parlamentar estaria sendo processado em razão de declarações anteriores.
A fala ocorreu em meio à discussão que envolve uma moção de repúdio, atividades pedagógicas relacionadas à cultura afro-brasileira e questionamentos sobre liberdade religiosa e atuação parlamentar.
Ao encerrar, Alexandra deixou uma mensagem de enfrentamento institucional:
“Intolerância religiosa não será normalizada em João Monlevade. Racismo religioso não será disfarçado de opinião e preconceito não será chamado de educação. E direito não será tratado como favor.”
O episódio deve continuar repercutindo na Câmara Municipal e entre representantes de comunidades religiosas, educadores e movimentos ligados à defesa da igualdade racial e da liberdade religiosa.
O Monlevade em Ação Notícias acompanha o caso e dará espaço aos vereadores citados e às demais partes envolvidas para apresentarem seus posicionamentos.






